Sobre arte e esperança

Em tempos tão sombrios, é a arte que me oferece algum alento e me permite me nutrir de esperança.

A arte talhada nos espaços públicos da cidade, e que a torna mais humana, mais próxima dos nossos medos, angústias e triunfos.

Compartilho um poeminha fotográfico, e que a arte, em todas as suas formas e linguagens, possa possa nos fortalecer e nos encorajar!

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A arte que liberta

Comecei em 2012: meu inventário fotográfico de frases, inscrições, poemas, palavras, grafias urbanas espalhadas nos espaços públicos da cidade. Meu acervo já tem cerca de 800 fotos, coletadas em minhas andanças. E suas possibilidades são imensas: construção de pequenas narrativas, agrupamento das frases por temas, material teórico para análises mais aprofundadas, e, principalmente, a possibilidade de brincar, criando pequenos universos, capítulos, começos.

Ofereço esse capítulo: A arte que liberta, uma coletânea de frases sobre a arte, que tive a alegria de expor, em 2014, no aniversário de 2 anos do Sarau da Ponte pra Cá.

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Imagens, texturas e poiesis – um poema fotográfico

Eis um experimentação artística: minhas fotos transformaram-se num poema, escrito pelo poeta Cauê Lundi:

Imagens e desconstruções sígnicas.

Constructos de novas visões e possibilidades imagéticas.

Paredes e vestígios do tempo que ainda perduram na materialidade específica e pura das expressões catárticas.

Cores esmaecidas, riscos e rabiscos na luz das fotografias.

Sugestões e constelações de possíveis realidades que ainda não sucumbiram à sana de um tal progresso expansionista de ideias calcadas no concreto, no vidro e no aço;

estilhaços nos olhos servis do fausto.

Luz, cores e espaços vazios,

preenchidos pela imaginação de poetas.

Artistas visionários!

Enlouquecidos em seus maquinários de projeção de imagens estáticas,

mágicos da luz e sombra no universo fantástico da criação de relações plásticas e nostálgicas.

A tática é captar o sensível no imbricado jogo de passagens e desvios que um dia tiveram lugar nas construções de um passado não tão distante.

Registro nas paredes de cidades perdidas no elã histórico das modernidades.

Portos seguros de um fiel retrato do que já foram;

plantas e gramíneas nas fissuras e rachaduras daquilo que nos pertence enquanto saudade e presente.

Texturas em contextos de aparência frágil.

Registros da presença humana e das asperezas da natureza em sua plenitude sarcástica;

nada dura para sempre, mas sempre há de ter no fio da navalha do tempo algo que persiste, que não é perene.

Que teima em insistir em nossa consciência, em nos nossos olhares, lares, lugares.

Memória eletiva das poesias que tecem novos caminhos para nossa integralidade.

Cores, luzes, claros, escuros.

Tétricos, suaves, sombrios.

Plantas, areia, sementes, natureza.

Justa medida na intersecção de algo que nos deflora e nos afaga como um refúgio de esperanças e sonhos.

Pontos idílicos transmudados nas constelações de cliques e passadas.

O cair da tarde sufoca o grito das imagéticas palavras.

No calar da noite nenhum assombro, nenhum presságio, nenhum assovio.

Nenhuma máscara!

Filha do tato

Tocar sempre foi imperativo em mim. Tocar nas palavras, na textura da pele das coisas, na profundidade dos sentimentos, na raiz dos problemas, nas feridas, nos mistérios, na areia, no incerto, no duvidoso, nos espinhos, em flores…

Tocar outra pele, pedindo redenção. Tocar os lugares mais inusitados, terrenos inexplorados, fagulhas de desejo, reinos esquecidos. Tocar na dor com punhos armados, na alegria com um suavidade medrosa, tocar no silêncio pleno, na fonte das lágrimas, tocar levemente no mar, nos segredos, na terra, na semente.

Oferecer uma solidão ávida por meio do toque, uma solidão tão faminta que às vezes se faz bruta. Tocar suavemente na suavidade dá medo. É necessária uma preparação interna. Tocar na verdade sempre me deixou silenciosamente louca. A verdade cavada com um desespero ancestral. A verdade dos fatos, a verdade que encerra a vida, que prevalece por trás da hipocrisia, que se enfeita de demônio, envernizada pela covardia; nessa sempre toquei com brutalidade, embora eu ainda não tenha conseguido retê-la.

Na felicidade, confesso que algumas vezes toquei com luvas. Por um desejo faminto de mantê-la ilesa.

Arte contra o abandono

Aconteceu em 2013 (se não me engano). Eu era professora de Sociologia da rede Estadual, e resolvi fazer um curso de Arte e Multimídia, oferecido pela Diretoria de Ensino. Eu estava empolgada, afinal, a arte é a matéria-prima da minha vida, meu precioso oxigênio. De modo que aprender mais sobre o assunto me encheu de expectativas.

Já nos segundo encontro, o professor nos orientou a criar uma Xilogravura. O primeiro passo é a matriz, o desenho. Como referência, ele nos mostrou alguns desenhos de arte indígena e africana, máscaras e símbolos. Criaríamos nossa matriz dentro desses temas – não sei por qual motivo não podíamos fazer nosso próprio desenho. E foi quando aconteceu: constatei, mais uma vez, só que de maneira muito mais intensa, que não sei desenhar. Não possuo sequer coordenação motora para criar uma forma geométrica. Para usar um estilete.

Fui tomada por um constrangimento imenso, porém silencioso. Inúmeras sensações me invadiram, e tentei, minimamente, mapeá-las: em instantes, voltei a ser a aluna no termo literal da palavra, sem luz, inadequada no meio de tantos professores de Arte, assombrada por vozes que me diziam: não-consigo-não-posso-não-sei-o-desenho-não-vai-sair-vou-tirar-zero-vão-rir-de-mim!!! Foi como se eu estivesse sentada na carteira da minha antiga escola municipal, torcendo pra que a aula terminasse logo, pra que ninguém descobrisse meu fracasso. Naquele momento, me pareceu que não tinham passado alguns anos entre aquela aluna insegura e a adulta que sou agora, é o que as vivências ruins fazem com a gente, quando não as elaboramos emocionalmente, ressurgem, cruas, inteiras, ávidas, espinhosas.

Voltei ao presente, respirei fundo e tentei fazer o desenho. Creio que há em mim certa tenacidade que desponta, em alguns momentos, e me faz guerrear. Pois tentei, mas não consegui. E fui acometida por outras lembranças, dando um sentido mais racional às minhas emoções: onde estava o abismo em minha educação formal, no que se referia ao desenvolvimento das mais elementares habilidades artísticas? Então me veio à mente uma das minhas professoras de Arte. Imagens embaçadas, porém, minha memória me ofereceu exatamente aquilo que eu precisava para refletir. E transpor.

Não me lembro muito dela. Sequer do nome. Márcia? Morena, cabelos encaracolados. Era jovem e entediada. Impaciente, apática. Olhava para o relógio o tempo todo, certamente desejando estar longe dali. Longe de nós. Em relação ao conteúdo, tínhamos cadernos de desenho, e, em todas as folhas, era preciso fazer a margem, o que, pra mim, era uma luta constante para conseguir a linha milimetricamente perfeitamente reta, e essa luta seria menos sangrenta se, na época, eu tivesse condições de entender que, pra mim, o mundo jamais seria linear. E o que mais? Geometria. Sim, geometria. Quadrados e círculos  e retângulos, quadrados e círculos e triângulos e retângulos, quadrados e círculos e triângulos e retângulos. Ela os corrigia, não sei com base em qual critério. Usava uma régua? E quando tivemos que criar sombras nas tais formas geométricas, meus desenhos saíam borrados. Um pesadelo.

Todos nós carregamos feridas e cicatrizes de nossas experiências escolares; alguns as atenuam, outros as trancam. Jamais tive a pretensão de me tornar uma desenhista, e não creio que essa seja a função da escola. Sua função é, no que se refere à Arte, oferecer aos alunos a possibilidade de criação, independente do resultado. Afinal, o que é um desenho bonito? A função da escola é inundar o imaginário das crianças e jovens de cores, formas, linguagens, oferecer aquilo que provoca, que choca, acalenta, revolta, sacode a zona de conforto do olhar estético de cada um (e do seu olhar sobre o mundo). A arte precisa existir por si mesma, a princípio. A arte existe, respira, transforma, agrega, soma, confunde e faz nascer no momento em que o ser inteiro está envolvido em sua criação, fazendo com que sua poética pessoal seja expandida, e adquira corpo e vida.

Aí está o meu abismo. Minha professora entediada não possuía a generosidade necessária a quem ensina – oferecer novos mundos. Não nos apresentou nenhuma música, nenhuma obra de algum artista, nenhuma poesia, nenhuma fotografia, nenhuma escultura, nenhum romance, nenhuma instalação, não sugeriu nenhum passeio, nenhuma exposição, nenhum, nenhuma, nenhum, nenhuma…

No entanto, posso afirmar que minha paixão pela expressão humana venceu o terreno árido do que não me foi apresentado pela escola. Faço arte o tempo todo. Muito do que sou e de como sinto devo às minhas referências artísticas. Tive professores mais generosos, que contribuíram muito para a construção dessas referências, mantendo minha curiosidade reluzente. Mas não deixo de pensar em quantas mentes passaram pela professora entediada e se fecharam para esse universo, e o resultado é, principalmente, a proliferação de pessoas insensíveis, primeiramente a si mesmas. Há um pernicioso abandono cometido pelas instituições escolares quando não alimentam a subjetividade de seus alunos. Um abandono/ferida aberta que condiciona o ser à certeza de que não é capaz de criar.

E este não criar é o que o faz desistir de acalentar, contornar e realizar seus desejos mais preciosos.