Todo o tempo do mundo

Num beve período de licença médica, resolvi uma pendência impregnada no tecido embaraçado do meu cotidiano: dar uma solução para meus relógios, no sentido existencial e prático. Explico: existencial porque minha devoção à pontualidade e à importância das horas me assusta, conheço e ao mesmo tempo não conheço esse ser britânico que me obriga a manter um relógio no pulso como se já fizesse parte de minha anatomia, que me faz chegar com uma respeitável folga de tempo antes de um compromisso marcado e constatar, toda vez que alguém atrasa, que o projeto ser humano fracassou. Prático porque ninguém precisa ter mais de um relógio, já que sua função é simplesmente fornecer as horas. Pois bem, descobri, um tanto quanto espantada, que possuía oito relógios, e nutria um carinho imenso por cada um deles. Com muito esforço, tentando mergulhar meu ser no desapego, consegui me desfazer de dois.

Quanto aos outros, precisavam de bateria. Prometi pra mim mesma que os usaria, cuidaria deles, e os enfiei em minha bolsa, tendo em mente uma relojoaria perto de casa. Mas, no meio do percurso, avistei uma loja pequena, sem nome. O tipo de loja difícil de encontrar, pois é carregada de História, corajosamente resistente à impessoalidade moderna. Havia alguns relógios bem antigos nas vitrines, e, quando entrei, me senti imersa no maravilhoso mundo da ordem. Meus olhos se deslumbravam com tantos modelos espalhados por todos os cantos, até que um homem caminhou em minha direção, um senhor japonês, um pouco curvado e sério, muito sério. Coloquei os relógios no balcão e pedi que ele trocasse as baterias. Sem perder tempo, sem bom dia, começou sua missão, manipulando seus instrumentos com a graciosa precisão dos japoneses, tão habituados a recolher e fazer florescer os detalhes miúdos, as peças/chips que inundaram o mundo, a tecnologia de ponta que muitas vezes não vemos, mas que nos orientam, nos mantém em órbita. Observando seus gestos, percebi que meu ser britânico interior estava satisfeito, sentindo-se acolhido e respeitado por tanta austeridade. Ali ele cresceria, criaria asas, esticaria suas garras e me envolveria no conforto estático de uma existência previsível e segura.

No entanto, contrariando a lógica apolínea daquela atmosfera, duas coisas me absorveram e transformaram meu olhar: havia a luz da manhã, que inundava a loja com uma avidez suave, varrendo os vestígios da noite, prometendo mais do que o começo do novo dia, prometendo uma alegria sem nome, afirmando que tudo é novo e inconstante e que o conforto reside justamente no tempo e no espaço que já doei (e continuo doando) à minha alma, pra que ela seja o que quiser/precisar ser. E aquela luz se tornava mais potente, mais densa, sem jamais perder a suavidade, ao ser conduzida pela voz visceral de Edith Piaf, sim, ela mesma! Era dela que ele gostava, era ali que residia sua maravilhosa contradição: a passionalidade daquela voz não cabia naquela loja sóbria e nem no semblante nublado do seu dono. Compreendi tudo isso, aliás mais do que isso, mais do que consigo derramar em palavras, e essa compreensão me alcançou depois de uma felicidade absoluta que senti em estar ali, o que me fez olhar para ele e sorrir, um sorriso puro, triunfante, um convite imprudente à sua cumplicidade, para que nossos mundos e nossas contradições se tocassem, para que aquele instante fosse fundador. Ele me encarou, um olhar sem muita curiosidade, e nenhum músculo do seu rosto se mexeu. Nenhum!

Continuei sorrindo, de mim, dele, da vida. Depois de alguns minutos, ao trocar uma das pulseiras, no momento em que ele ia pegar uma preta, igual à original, apontei para outra, lilás. Ele me avisou, ainda sem qualquer curiosidade, que a lilás era mais cara. Tudo bem, respondi com simplicidade, o sorriso já recolhido. E recolhi também minha vontade de lhe dizer: quero a lilás porque preciso de cores e movimento e renovação em minha vida, porque o britânico que mora em mim na verdade ocupa um espaço pequeno, porque meu ser caótico é aquele que cria, que tenta compreender o mundo, colocar-se honestamente nele, porque me alimento de arte, porque, de vez em quando, com uma saudade ligeiramente triste de paisagens parisienses, ouço Edith Piaf, e ela canta chorando, canta sorrindo, canta gritando, com a alma do avesso, exatamente como ela canta em sua loja, impulsionada pela luz da manhã.

E foi dessa forma que consegui diluir minha questão existencial com os relógios: sempre soube que nunca precisei de tantos. E que, se o senhor japonês um dia quiser me contar sua história, terei todo o tempo do mundo para ouvi-lo.

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