O Avesso da Aurora

Minha experiência de oito anos como professora de Sociologia da rede pública estadual me rendeu grandes aprendizados e amargas reflexões. Por muitas questões, exonerei em setembro do ano passado. Não foi fácil. Todo desprendimento é doloroso, mesmo que seja um caminho para a libertação e para o crescimento. Porque nos apegamos. Porque nem tudo foi ruim: tenho a imensa alegria de ver muitos alunos florescerem, e minha interação com eles era preciosa, mesmo que circunscrita à sala de aula e a um bate papo que durava no máximo vinte minutos – a dispersão é uma constante.

Durante o tempo em que fui efetiva numa única escola, fotografei aquele espaço: objetos quebrados, cenas desesperadoras de abandono e negligência, a arquitetura prisional e militar, e essas fotografias compõem um projeto autoral chamado O avesso da aurora, que está em elaboração: um livro que alterna as fotos com depoimentos dos alunos, crônicas do meu cotidiano enquanto professora, um material que desejo compartilhar, uma vez que a sociedade civil como um todo, e não apenas os educadores, devem refletir sobre a educação que temos e a que queremos.

Apresento um trecho desse trabalho, um texto e algumas fotos, numa tentativa modesta, porém tenaz, de promover algumas mudanças.

Apague-se

Não escreva na carteira. Apague esse rabisco. Apague. Apague. Apague. Encontre a resposta no livro, do jeito que está escrito, não escreva com suas próprias palavras. O livro usa palavras certas. O professor usa palavras certas. Você não. Não amasse o livro. Ele é sagrado. Ele é intocável, mais importante do que você, não é um objeto maleável que pode ser apropriado pela sua curiosidade. Leia os grandes clássicos. Mesmo que você não entenda o significado das palavras e a complexidade dos temas. Vai cair na prova, dê um jeito de decorar. História em quadrinhos só na hora do intervalo. Leia livros sérios. Arme e efetue. Decore os nomes dos estados e suas capitais, decore as fórmulas, decore as conjugações, as regras gramaticais, não interessa pra que tudo isso serve. É isso que me mandaram ensinar.

Quer ser alguém na vida? Estude. Não use canetas coloridas, você não é mais criança, não ouse criar, não ouse colorir a vida. Não erre. Escreva dentro da margem, viva dentro da margem, a vida vai te ensinar, a vida lá fora é dura. Tenha seu caderno em dia, mesmo que não entenda o que está escrito nele. Vou dar visto. Vai valer nota. Se você não estudar, vai repetir de ano. Eu já expliquei. Você não entendeu porque não quis. Ou não prestou atenção. Fique na fila. Sente-se atrás do seu colega, com os olhos fixos na nuca dele, não contemple o inusitado, não se mexa. Educação vem de berço. Não pode aplaudir depois do Hino Nacional. Isso é falta de respeito. Ame a pátria. Use uniforme. Modele o corpo e a mente. Senta direito. Não se mexa. Não se movimente. Não me dê trabalho. Repita o que está nos livros. Decore as datas. Aquele lá parece um bicho, fala resmungando. Não use gírias. Tem que respeitar pai e mãe. Tem que respeitar os mais velhos. Vai falar assim com sua mãe! Pensa que sou sua mãe?! Suas negas?! E essa tatuagem? Como vai arrumar emprego desse jeito? E esse cabelo? E esse boné? Coitada, tem o cabelo ruim. Sua letra é feia, seu desenho é ridículo, você desenha como uma criança. Que poesia é essa?! Não tem rima nem métrica. Você não quer nada com nada. Seja responsável, já está na hora de crescer. Pare de sonhar. Isso vai passar, com o tempo. Você vai ver, quando tiver que sustentar uma casa. Depois não diga que não avisei.

Isso que você ouve não é música. Onde já se viu, tanto palavrão? O que aconteceu com a música popular brasileira? Nunca ouviram falar de Beethoven. Acham que é nome de xarope. Não mastigue chiclete, é nojento. Não rumine uma ideia até entendê-la, eu já dei essa matéria. Isso aí não é problema cognitivo, é frescura. Pra bagunçar ele é bom da cabeça. Tudo fingimento. É preguiçoso, não se esforça. Também, com aquela mãe, Deus me livre! Aquela barraqueira. Ela é mole, não sabe dar um corretivo. Se fosse comigo, ele ia ver só. O outro é afetadinho, alegrinho, não tenho nada contra, mas não precisa desmunhecar tanto, rebolar. Isso aqui não é passarela. E aquela assanhada? Essa, sim, é piriguete. Estava se esfregando com um menino no portão da escola. Daqui a pouco está grávida e nem sabe quem é o pai. Se fosse minha filha, ia ver só. Aquele escurinho. É tão fraco! Não vai ser nada na vida. Não sabe nem escrever o nome, e não sou eu quem vai ensinar, porque ele já deveria ter aprendido. Esses bolivianos fedorentos. Por que não tomam banho? Ela veio lá da terrinha, olha a cabeça chata.

Tinha que ter policial dentro da sala de aula. Aí eu queria ver se esses marginais iriam bagunçar. No meu tempo era bom, a gente respeitava a autoridade. Quero ver se não se comporta depois de uns tapas. Meu pai me dava uns cascudos e não fiquei com nenhum trauma. Eu tenho caráter. Quem tem que educar é a família. Menos Piaget e mais Pinochet. Essa pergunta não tem nada a ver com a matéria (não seja curioso). Não quero saber sua opinião porque você não pensa. Você copia. Arte não deveria estar na grade curricular. Nem sociologia. Nem filosofia. Estão querendo colocar o Espanhol? Pra quê, se eles não sabem nem o português? Fiquem quietos. Sejam quietos e bonzinhos… não frequentou as aulas porque está com depressão? Quer fazer trabalhos para compensar? Mas aqui é uma escola, e não uma clínica de reabilitação. O pai morreu? Mas já faz seis meses, ele deveria ter superado. Todo mundo tem problemas, eu também tenho os meus. Isso não é desculpa. Aquele lá vai ser bandido. Dá pra ver pela cara. Não adianta desfazer as panelinhas, porque eles vão formar outra. Lixo se reconhece pelo cheiro. Eles não querem saber de nada. São analfabetos funcionais. Vai repetir de ano, pra aprender a ter responsabilidade. Bagunçou o ano inteiro, agora vai ver só. Se fosse meu filho… ainda bem que não é. Quantos dias faltam para o próximo feriado? Bem que eles podiam faltar hoje. E amanhã. E sempre. Eu quero ensinar, eles que não querem aprender.

13_img_7540-1

12_img_7604-1-1-1

20_mg_0632-1

 

 

 

Anúncios

4 comentários sobre “O Avesso da Aurora

  1. HORACIO 27 de setembro de 2016 / 21:49

    É assim mesmo. Pena. Parabéns pelo ótimo texto.

    Curtido por 1 pessoa

    • Bia Lunna 3 de outubro de 2016 / 15:59

      Obrigada, Horácio! É bom saber que nós dois fizemos parte da construção de uma nova escola!

      Curtir

  2. Lumi Strecker 29 de setembro de 2016 / 18:53

    ô, que forte este texto.
    Fui aluna de escola pública, já ouvi várias dessas frases. Já senti que alguns dos meus professores achavam que não adiantava ensinar nada pra gente porque não seríamos nada na vida.
    Sei que é duro ser professor e toda a realidade que eles enfrentam e tal e coisa. Mas, tb é duro para os bons professores e, no entanto, eles estão aí, insistindo que podemos ser melhores , que podemos mais.

    Curtido por 1 pessoa

    • Bia Lunna 3 de outubro de 2016 / 15:58

      Sim, Samia, na escola onde lecionei, existem ótimos professores, que inclusive são meus amigos.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s