Rayssa Silva e a poesia que nos salva

Em percursos sinuosos, feitos de escolhas e anseios, existem os reencontros. Talvez reencontro não seja a palavra mais adequada, porque o encontro em si nunca perdeu seu encanto. Quando eu lecionava na sala de aula onde Rayssa Silva estudava, sentia uma imensa alegria, porque sabia que as trocas eram preciosas, e sua imensa curiosidade pelo conhecimento criava uma vibração, uma atmosfera acolhedora.

Tive o prazer de apresentar, em outra postagem, a produção fotográfica da minha ex aluna Naay Augusta. Acompanhar o florescimento deles, enquanto artistas, me oferece uma generosa esperança de futuros mais promissores, em todos os sentidos.

Dessa vez, apresento a arte de Rayssa, que percorre diversas linguagens, movida pelo genuíno desejo de se expressar. Dançarina há alguns anos, imprime aos seus movimentos uma magia que inunda a alma. Seu desejo de desvendar a cidade e perseguir possibilidades de torná-la mais humana lhe rende fotografias que promovem reflexões e inquietações. E, além de tudo isso, Rayssa é poetisa.

 

Nesse olhar calmo e claro

Declaro a guerra

Se viu, bem

Não viu quem

Lançou o primeiro

Punhal    

Trincheiras, não queira

Sair nem ficar

Bem

Quem cala consente

Não sente, o agrado

Do confessar

Mimoseio-me

Então, através

Desse não

Poetizar

 

Nesse olhar calmo e claro

Declaro guerra civil

Quem não viu

Verá.

 

Na calada da noite

No escuro do quarto

Cometo delitos

Um diferente a cada dia

Ou noite, melhor dizendo

Correndo, depressa

Com medo de ser pega

Tá aí, um medo

Que não deveria existir

O de ser pega por você.

– Stalker.

 

    Acordar e correr pro banheiro, de lá dar um pulo pro quarto, uma passada na cozinha, e já é hora de sair, corro pra entrar no ônibus, pisco os olhos e preciso descer, mal desço e já estou na escola, um suspiro e finda a última aula, corro pra pegar o ônibus, um cochilo e já estou em casa, curto duas fotos e acabou o jornal da noite, respiro fundo e o despertador toca, olho pro céu e minha vida acabou, o tempo passou e não fiz nada além de existir.

 

1
Stêncil realizado por Rayssa no FabLab da Galeria Olido – Curso Criações Artísticas e Intervenções Urbanas.

No início desse texto, mencionei os encontros/reencontros porque, em junho desse ano, eu e Rayssa nos reencontramos no curso Criações Artísticas e Intervenções urbanas, que desenvolvi no Mirante Lab, em parceria com o Gui Kominami (curso que merece e terá uma postagem). Rayssa foi novamente minha aluna, mas, dessa vez, pudemos compartilhar experimentações artísticas que extrapolaram qualquer limite imposto pela instituição. Como encerramento do curso, realizamos intervenções artísticas em alguns espaços públicos. Foi assim que uma das poesias de Rayssa passou a fazer parte das entranhas da cidade, porque a poesia não pertence apenas aos livros, nem a poucos, e, semeadas em todos os cantos e fendas, poderá, efetivamente, nos salvar.

2
A poesia de Rayssa pelos muros da cidade – Foto de Adriana Leopold

 

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2 comentários sobre “Rayssa Silva e a poesia que nos salva

  1. Carol Guedes 21 de outubro de 2016 / 22:21

    Duas lindezas, Rayssa ser mais fofo do Universo e Bia genial que tem uma sensibilidade fora do comum! Só sucesso vcs duas! Arrasam sempre!

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    • Bia Lunna 22 de outubro de 2016 / 14:11

      Obrigada, Carol! Juntas somos mais fortes e mais criativas! Beijo imenso!

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