A textura da Lua

Preciso de janelas amplas. Ver o céu, em contato íntimo com sua vastidão – palavra que me encanta, porque muitas coisas em mim são vastas e precisam se expandir. Talvez por isso eu possua grande afinidade com estrelas e planetas buracos negros e luas e escuridão. Não por acaso, o nome que escolhi para me reinventar foi Lunna.

Há uma lembrança que me acaricia de vez em quando, e que faz parte de um dos momentos mágicos da minha vida. Infelizmente, não consigo reter muitos detalhes: numa excursão, provavelmente da escola, fomos visitar um planetário localizado na cidade de Americana. O lugar era gigante, e pudemos usar um telescópio magnífico. O tempo de observação era curto, mas foi o suficiente para que eu me deslumbrasse ao ver a lua de tão perto, como se pudesse sentir a textura das suas crateras, constatar que Saturno realmente está envolto por anéis, em minhas lembranças eles eram amarelos, feitos de alguma fumaça.

Talvez, grande parte desse deslumbramento venha do fato de que estou tentando, há muitos anos, lidar com minhas sombras, meus lados escuros, e fazer alguma coisa preciosa e submersa emergir. É essa tentativa que me impulsiona a escrever, a fotografar, a me alimentar de arte para que eu compreenda melhor esse mundo, as pessoas com quem me relaciono, e minha necessidade, sempre urgente, de inundar minha vida de sentido.

E, quanto mais compreendo, mais percebo a presença do conflito. Porque ser autêntico me faz confrontar o que está estabelecido, em todas as instâncias da minha existência. Aprender a expressar sentimentos, visões de mundo, materializar minha identidade (sempre em formação) em meu modo de ser, gesticular, falar e até mesmo me vestir causa, em muitas situações, incômodos que estão subentendidos em olhares hostis mal disfarçados, mal polidos, às vezes em comentários mais diretos, como farpas que ferem porque possuem veneno – eis o conflito novamente.

Há um lado guerreiro, marciano, em mim. Um lado que endurece, como a casca de um predador, minhas mandíbulas dilatam, a raiva queima minhas entranhas, se torna um combustível, uma lança, uma pedra, talvez. Mas, na maioria das vezes, tento escolher a delicadeza. Afinal, uma das características que sempre me atribuíram foi a simpatia.

Enquanto isso, nessa caminhada que traz algo de dolorido, algo agridoce, continuo, me fortaleço, porque a força, a potência de existir (com toda a nossa complexidade), é o que temos de mais precioso.

Talvez seja, efetivamente, a única coisa que realmente possuímos.

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