De uma artista para jovens artistas

          Em minha longa jornada enquanto educadora, muitas vezes me deparei com jovens artistas. Desenhistas, escritores, poetas, grafiteiros, fotógrafos, e, quase sempre, eles apresentavam suas produções timidamente, constrangidos, indecisos, ávidos por alguma coisa. Reconhecimento? Legitimação? Muitos delegavam essa produção a uma atividade paralela, como se fosse uma espécie de hobby, afinal, tinham que estudar, escolher uma profissão, ajudar financeiramente em casa, ingressar no mercado de trabalho.

            Algumas histórias, que acompanhei mais de perto, me tocaram muito. Porque ser artista significa enfrentar um imenso dilema existencial, e uma sociedade que não vê a carreira artística com bons olhos. As famosas frases: Vai viver do quê? Faça uma faculdade séria! Desista! Seja responsável!, funcionam como sentenças talhadas em pedra, que podem levar uma pessoa a um caminho de profunda infelicidade.

            Não sei, honestamente, como resolver essa equação: ser ou não ser artista. Cada um tem sua coleção de dramas, demandas, necessidades e, geralmente, um contexto social extremamente injusto, onde não há espaço para sonhos e realizações. No entanto, quando me lembro do meu próprio caminho, e de quanto tempo demorei para me assumir (existencialmente) enquanto artista, quando um aluno me mostra seus escritos rascunhados, com os olhos brilhando de anseio e desejo de existir, sinto uma inquietação que, até então, não consegui transformar em palavras. Ajudei no que foi possível, e isso não quer dizer que encaminhei suas almas ou resolvi seus dilemas, mas que, na relação sincera que construí com eles, os olhei com atenção, e, sim, os incentivei. Me parece evidente que precisamos de mais elogios e de menos punições. Mais incentivos e menos fórmulas prontas de um suposto dever ser. Portanto, escrevi algumas palavras, em homenagem a todos(as) eles(as):

            Não permita que ninguém te convença a desistir. Pegue seus sonhos nas mãos, em suas garras, e os proteja, os alimente, para que fiquem fortes o bastante e criem asas, pés, raízes e frutos. Exista! Exista sempre, em toda a sua complexidade, em toda a sua dor e alegria, em todo o seu desejo de se expressar, de se afirmar exatamente como é, como enxerga e sente o mundo. Não posso mentir: não será fácil. O mundo é, geralmente, uma terra infértil que nos quer iguais e previsíveis, por isso, é preciso cavar a terra fértil com as unhas. Mas não se engane, porque a incompreensão do mundo é inversamente proporcional à sua força. A força que nasce do seu talento, da sua criação, da sua lucidez e da sua loucura. A força que não te fará se dobrar e se entregar, que te trará a certeza de que, mesmo com todas as batalhas sangrentas, nada deve ser mais importante do que ser o que você é.

            É possível que você encontre seus iguais. Pessoas tão sensíveis quanto você, tão inquietas e poéticas quanto você, e esses encontros vão proporcionar uma preciosa unidade, vão te revestir de mais força, de mais anseio, e de mais busca.

            Nós, artistas, não viemos ao mundo para nos adaptarmos a ele. Jamais iremos nos encaixar em convenções e planos de vida pré-fabricados. Viemos ao mundo para povoá-lo de cores, denúncias, emoções, dramas, perguntas. Oferecer atalhos e bosques secretos, onde a alma humana pode repousar e se reinventar. Observamos o mundo de fora, e esse ostracismo tem algo de amargo, de indigesto, mas talvez esse seja o verdadeiro sentido da liberdade. Porque ser livre não é ser pleno, nem resolvido, como se chegássemos a um patamar de felicidade intocável. Ser livre é lutar pelo que sente e pelo que acredita – o tempo todo. É criar sua obra enquanto luta. É ter a satisfação imensa de poder afirmar para si mesmo que ninguém, absolutamente ninguém, é dono de seus pensamentos e de suas ações. A liberdade é construída a cada minuto, quando nos sentimos fortes o suficiente para dizer não para o que nos machuca, e sim para tudo o que nos faz resplandecer. E, nesses intermináveis e intensos minutos, nosso mundo interior é inundado de luz, a liberdade adquire nervos e sangue, é como se uma pele verdadeira nascesse, para que nosso ser autêntico consiga caber nele, confortavelmente.

            Se o peso das obrigações sociais e necessidades financeiras te esmagar, te fizer sucumbir, mesmo assim, não desista. Esteja de cabeça erguida e de olhos atentos, crie para si mesmo, construa um acervo de suas criações, e que ele esteja pronto para qualquer oportunidade – aliás, essa é uma palavra estranha, porque, por um lado, é similar à probabilidade, e, por outro, à sorte. Que assim seja: quando a oportunidade de mostrar seu talento e trilhar seu caminho aparecer, agarre-a apaixonadamente. Quando a sorte de estar no lugar certo com as pessoas certas surgir, esteja inteiro e pronto.

                Somos feitos de sonhos. Que eles sejam nosso norte.

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Um comentário sobre “De uma artista para jovens artistas

  1. Luciano 26 de março de 2017 / 23:47

    obrigado pelas lindos conselhos! só discordo de uma coisa: esse texto você direciona para novos artistas, mas os artistas véios de estrada podem ler e lembrar o porquê são artistas.

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