Que assim seja – inspirada em Alex Supertramp

            Ainda não coloquei as mãos no livro, mas sei que custa R$ 47,90 na Livraria Cultura, e que vou saboreá-lo com a doçura que nos faz desvendar um mundo. O nome é Na natureza Selvagem, o autor, Jon Krakauer, editora Cia das Letras.

            Vi o filme, e me arrebatou. De tantas formas que ainda não consigo descrever, vou descascando minha compreensão, apreendendo um novo detalhe, absorvendo algum ensinamento. Porque, sobretudo, a biografia de Chris McCandless ensina. Jovem, recém-formado, abandona tudo e empreende uma viagem solitária rumo ao Alasca. Quer estar em contato com a natureza, se refazer a partir dela, e é claro que não vou contar mais detalhes porque vai estragar a experiência de quem tiver a brilhante ideia de assistir.

            Sua trajetória é retratada com intensidade e força. Mas também com esperança. Certos aspectos do filme me intrigam, e o que me vem à mente nesse momento é a maneira como seu corpo se torna absolutamente livre, como um receptáculo que reage ao meio físico, aberto a ele.

            Penso, então, em nossos corpos, condicionados à macabra vida urbana. O corpo que treme, em silêncio. O corpo que quer escapar, já que não o ouvem. Nossos corpos possuem vozes, como diz Ismael Ivo. O corpo sofre. Calado, porém rebelde. O corpo apela pra que seja conhecido. Pra que a mente entre em contato com ele, conheça seus movimentos, seus espasmos, sua poesia submersa. O corpo tem uma potência que a mente jamais conseguirá atingir.

            Chris McCandless, que, ao longo de sua jornada, se rebatizou de Alex Supertramp – Alex, O andarilho, se disponibilizou completamente para mergulhar em si mesmo, para se conhecer, sem que nada o impedisse. Ouvir o silêncio e a solidão, as dores do passado e a alegria misteriosa do porvir, apreender o agora como única e provisória lei. Agora. Agora eu preciso comer. Agora eu preciso entender as consequências das minhas escolhas. Agora preciso olhar para minhas marcas e me desfazer de todas que não têm mais sentido. Agora. Agora. Agora me permito me reinventar a partir do mapeamento das minhas mímicas, da minha geografia interior, da minha vastidão e pequenez, dos meus pedregulhos e das minhas fortalezas, do que significa amar e deixar de amar. Sobretudo deixar de amar, suponho. Agora sei que a liberdade é feita de uma matéria pegajosa, só serei livre se for contaminada por essa matéria, se eu me fizer a partir dela, se estiver tão dentro de mim mesma que nada, absolutamente nada, nunca, poderá me curvar novamente. Agora escolho. Escolho a cada minuto, e no minuto seguinte renuncio a essa escolha, porque estou me fazendo enquanto. Nada de certezas e conclusões, elas sempre foram provisórias; tentadoras, porém levianas. Agora ensaio, grito, regozijo o simples fato de existir, ouso, recuo, durmo, bocejo, rio, invento ficções que preencham meu passado, faço dele uma série de fotografias mentais em preto e branco, agora sou alegre sem nenhum motivo e sem nenhuma medida, agora há em mim fogo e calmaria, há anseio e preguiça, há convicção e cacos de vidro, há miopia e uma lucidez que me ultrapassa, que me deixa fora de órbita, que me oferece um chão utópico, daqui uns instantes esse chão desaparecerá.

             Todos querem um pedaço dele, do Supertramp. As pessoas com quem ele interage, ao longo de sua viagem, querem protegê-lo, querem prendê-lo, querem provar, a qualquer custo, que fomos talhados unicamente para a sociedade, tudo o que é selvagem é perigoso, é como se lhes dissessem, nas entrelinhas: não seja tão livre, não vale a pena, encontre um caminho, pertença!

            Não, ele não pertence. Com profunda empatia e sinceridade, oferece algo de si mesmo a essas pessoas, mas se mantém distante, entretido demais consigo mesmo, inventando sua poesia, talvez querendo viver dentro dela, talvez não. Em cada lugar inóspito em que ele pousa, temporariamente, escreve versos nas cascas das árvores, num pedaço de madeira, em cadernos e papéis soltos, é o que existirão, palavras. Pistas. Indicações. Lutas.

            Não me sinto inclinada a fazer o mesmo percurso que ele, me falta a ousadia necessária, a desenvoltura, embora a ideia de desaparecer me seduza de vez em quando. O que apreendi, na profundidade de sua biografia, é a imensa e urgente necessidade de existir. Como ele, escrevo, rabisco. Escrevo em meu blog, escrevo pra mim mesma, escrevo um diário, às vezes alguma poesia. É como existo, por meio das palavras, todas inconclusivas, todas prometendo um começo, instituindo uma dúvida, uma tentativa ardente de compreensão, que esbarra em imensos obstáculos, em gigantescas interdições, afinal, o que existe para ser compreendido? O que é digno de ser compreendido? Tudo o que percebo nos outros, tudo o que enxergo além do que é dito – e a partir do que é dito – toda essa sede ancestral pela verdade, que sempre me deixou rouca por dentro, enviesada, turva, tudo isso, todas essas pontes destruídas entre eu e tanta gente, tanta gente que me atravessou e que não morou dentro de mim, ou que morou tão silenciosamente que nem me lembro, tanta gente que mora sem permissão e me machuca, tudo isso, certamente, nunca será compreendido e nunca me sentirei redimida.

            Agora. Agora devo acordar por um propósito genuíno, nem que seja contemplar o teto por horas a fio. Agora existo para banhar meu corpo e saborear um prato requintado, ou me inundar de doce de leite, a invenção mais incrível do universo. Agora preciso mergulhar num livro que me refaça. Agora existo somente pra existir e não tem roteiro, não tem rotina, não tem dever, não tem horário, não tem gente poluída e empalada borrando meu caminho, agora sou minha potência e ela direciona meus passos, que assim seja!

O livro:

167834SZ

O filme tem na Netflix

 

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Um comentário sobre “Que assim seja – inspirada em Alex Supertramp

  1. Marcelo de Oliveira 18 de abril de 2017 / 00:52

    Retrato/descrição irretratável das possibilidades da vida e das pulsões candentes/sedentas de liberdade! Parabéns Bia! Texto esplendoroso! Viva a poesia!

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