Arte contra o abandono

Aconteceu em 2013 (se não me engano). Eu era professora de Sociologia da rede Estadual, e resolvi fazer um curso de Arte e Multimídia, oferecido pela Diretoria de Ensino. Eu estava empolgada, afinal, a arte é a matéria-prima da minha vida, meu precioso oxigênio. De modo que aprender mais sobre o assunto me encheu de expectativas.

Já nos segundo encontro, o professor nos orientou a criar uma Xilogravura. O primeiro passo é a matriz, o desenho. Como referência, ele nos mostrou alguns desenhos de arte indígena e africana, máscaras e símbolos. Criaríamos nossa matriz dentro desses temas – não sei por qual motivo não podíamos fazer nosso próprio desenho. E foi quando aconteceu: constatei, mais uma vez, só que de maneira muito mais intensa, que não sei desenhar. Não possuo sequer coordenação motora para criar uma forma geométrica. Para usar um estilete.

Fui tomada por um constrangimento imenso, porém silencioso. Inúmeras sensações me invadiram, e tentei, minimamente, mapeá-las: em instantes, voltei a ser a aluna no termo literal da palavra, sem luz, inadequada no meio de tantos professores de Arte, assombrada por vozes que me diziam: não-consigo-não-posso-não-sei-o-desenho-não-vai-sair-vou-tirar-zero-vão-rir-de-mim!!! Foi como se eu estivesse sentada na carteira da minha antiga escola municipal, torcendo pra que a aula terminasse logo, pra que ninguém descobrisse meu fracasso. Naquele momento, me pareceu que não tinham passado alguns anos entre aquela aluna insegura e a adulta que sou agora, é o que as vivências ruins fazem com a gente, quando não as elaboramos emocionalmente, ressurgem, cruas, inteiras, ávidas, espinhosas.

Voltei ao presente, respirei fundo e tentei fazer o desenho. Creio que há em mim certa tenacidade que desponta, em alguns momentos, e me faz guerrear. Pois tentei, mas não consegui. E fui acometida por outras lembranças, dando um sentido mais racional às minhas emoções: onde estava o abismo em minha educação formal, no que se referia ao desenvolvimento das mais elementares habilidades artísticas? Então me veio à mente uma das minhas professoras de Arte. Imagens embaçadas, porém, minha memória me ofereceu exatamente aquilo que eu precisava para refletir. E transpor.

Não me lembro muito dela. Sequer do nome. Márcia? Morena, cabelos encaracolados. Era jovem e entediada. Impaciente, apática. Olhava para o relógio o tempo todo, certamente desejando estar longe dali. Longe de nós. Em relação ao conteúdo, tínhamos cadernos de desenho, e, em todas as folhas, era preciso fazer a margem, o que, pra mim, era uma luta constante para conseguir a linha milimetricamente perfeitamente reta, e essa luta seria menos sangrenta se, na época, eu tivesse condições de entender que, pra mim, o mundo jamais seria linear. E o que mais? Geometria. Sim, geometria. Quadrados e círculos  e retângulos, quadrados e círculos e triângulos e retângulos, quadrados e círculos e triângulos e retângulos. Ela os corrigia, não sei com base em qual critério. Usava uma régua? E quando tivemos que criar sombras nas tais formas geométricas, meus desenhos saíam borrados. Um pesadelo.

Todos nós carregamos feridas e cicatrizes de nossas experiências escolares; alguns as atenuam, outros as trancam. Jamais tive a pretensão de me tornar uma desenhista, e não creio que essa seja a função da escola. Sua função é, no que se refere à Arte, oferecer aos alunos a possibilidade de criação, independente do resultado. Afinal, o que é um desenho bonito? A função da escola é inundar o imaginário das crianças e jovens de cores, formas, linguagens, oferecer aquilo que provoca, que choca, acalenta, revolta, sacode a zona de conforto do olhar estético de cada um (e do seu olhar sobre o mundo). A arte precisa existir por si mesma, a princípio. A arte existe, respira, transforma, agrega, soma, confunde e faz nascer no momento em que o ser inteiro está envolvido em sua criação, fazendo com que sua poética pessoal seja expandida, e adquira corpo e vida.

Aí está o meu abismo. Minha professora entediada não possuía a generosidade necessária a quem ensina – oferecer novos mundos. Não nos apresentou nenhuma música, nenhuma obra de algum artista, nenhuma poesia, nenhuma fotografia, nenhuma escultura, nenhum romance, nenhuma instalação, não sugeriu nenhum passeio, nenhuma exposição, nenhum, nenhuma, nenhum, nenhuma…

No entanto, posso afirmar que minha paixão pela expressão humana venceu o terreno árido do que não me foi apresentado pela escola. Faço arte o tempo todo. Muito do que sou e de como sinto devo às minhas referências artísticas. Tive professores mais generosos, que contribuíram muito para a construção dessas referências, mantendo minha curiosidade reluzente. Mas não deixo de pensar em quantas mentes passaram pela professora entediada e se fecharam para esse universo, e o resultado é, principalmente, a proliferação de pessoas insensíveis, primeiramente a si mesmas. Há um pernicioso abandono cometido pelas instituições escolares quando não alimentam a subjetividade de seus alunos. Um abandono/ferida aberta que condiciona o ser à certeza de que não é capaz de criar.

E este não criar é o que o faz desistir de acalentar, contornar e realizar seus desejos mais preciosos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s