Filha do tato

Tocar sempre foi imperativo em mim. Tocar nas palavras, na textura da pele das coisas, na profundidade dos sentimentos, na raiz dos problemas, nas feridas, nos mistérios, na areia, no incerto, no duvidoso, nos espinhos, em flores…

Tocar outra pele, pedindo redenção. Tocar os lugares mais inusitados, terrenos inexplorados, fagulhas de desejo, reinos esquecidos. Tocar na dor com punhos armados, na alegria com um suavidade medrosa, tocar no silêncio pleno, na fonte das lágrimas, tocar levemente no mar, nos segredos, na terra, na semente.

Oferecer uma solidão ávida por meio do toque, uma solidão tão faminta que às vezes se faz bruta. Tocar suavemente na suavidade dá medo. É necessária uma preparação interna. Tocar na verdade sempre me deixou silenciosamente louca. A verdade cavada com um desespero ancestral. A verdade dos fatos, a verdade que encerra a vida, que prevalece por trás da hipocrisia, que se enfeita de demônio, envernizada pela covardia; nessa sempre toquei com brutalidade, embora eu ainda não tenha conseguido retê-la.

Na felicidade, confesso que algumas vezes toquei com luvas. Por um desejo faminto de mantê-la ilesa.

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